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Os rapazes da banda

Hoje é o dia da famosa Parada Gay de São Paulo, considerada a maior do gênero no mundo. Três milhões são esperados na Avenida Paulista. Apesar de toda a violência e preconceito que homossexuais ainda sofrem, o Brasil vem ocupando posição de destaque na conquista dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT). Sinal dos tempos...


No entanto, na matéria de capa da Revista da Cultura (edição 52, novembro de 2011), a antropóloga Heloísa Buarque de Almeida ponderou: "Ser gay, hoje, é bem mais fácil do que nos anos 1950, quando nem era possível assumi-lo publicamente. Nem por isso a homofobia acabou. Quanto mais visibilidade, surge uma reação violenta contra; os ataques a homossexuais estão crescendo, apesar desses avanços. É positivo, no entanto, que eles possam expressar melhor seus sentimentos".



Apesar da Parada Gay de hoje, esse preâmbulo foi apenas para que eu pudesse falar de Os Rapazes da Banda (The Boys in The Band), um dos melhores filmes que já assisti, independentemente da temática gay. Baseado na peça homônima do dramaturgo americano Mart Crowley, estreou nos cinemas em março de 1970. A peça off-Broadway havia estreado em 1968 e teve 1001 apresentações. Estourou no final dos anos 60 ao mostrar gays com vida comum, fato inédito até então. Trouxe visibilidade, chacoalhou valores e incorporou os homossexuais no cotidianos das pessoas. Uma marco na época.

William Friedkin
O elenco da versão cinematográfica, dirigida por William Friedkin (Operação França, O Exorcista), é o mesmo do teatro. Apesar de simples na estrutura, a história criada por Crowley é cheia de sutilezas e complexa nas subjetividades. Toda a ação se passa no apartamento de Michael (Kenneth Nelson), localizado no Upper East Side (área nobre de Manhattan, em Nova York). Michael resolve comemorar o aniversário do amigo Harold (Leonard Frey), um judeu culto e afetado, e recebe alguns convidados em sua casa, os tais "rapazes da banda". Um pequeno grupo de amigos, gays na faixa dos trinta e poucos anos.

Um a um, o leque de tipos vai se formando: o decorador Emory (Cliff Gorman) é o típico estereótipo do gay efeminado. Hank (Laurence Luckinbill) é um discreto professor de Matemática, prestes a se divorciar da esposa. O bonitão Larry (Keith Prentice) é fotógrafo de moda e namorado de Hank. O comportado Bernard (Reuben Greene), negro e de origem humilde, é balconista de uma livraria. O anfitrião Michael, um alcoólatra em recuperação, namora Donald (Frederick Combs), um rapaz de boa índole, porém "medíocre", como ele mesmo se descreve. O garoto de programa Cowboy (Robert La Tourneaux), protótipo do "louro burro", completa a galeria de tipos. O jovem michê, vestido de cowboy, é o "presente" de Emory para o aniversariante.

Da esquerda para a direita, os rapazes da banda: Kenneth Nelson, Frederick Combs, Laurence Luckinbill, Keith Prentice, Reuben Greene, Cliff Gorman, Leonard Frey e Peter White

"Cowboy", o presente de aniversário
Mas os alegres amigos não contavam com a presença de Alan (Peter White), ex-colega de quarto de Michael, dos tempos da faculdade. Alan é o típico heterossexual 'careta' e convencional. Ele aparece de surpresa para fazer uma visita, após muitos anos sem encontrar Michael. A partir daí se configura a crônica de um desastre anunciado. O que começa como um constrangimento se torna gradativamente uma seqüência de ironias que por sua vez se transformam em alfinetadas, agressões e revelações. O clima de festa dá lugar a embaraçosos rancores que vão emergindo de cada um dos personagens. Tudo regado a muita bebida e humor ácido. Os diálogos são rápidos e afiadíssimos.

Cena do filme
Assim como a peça, o filme – moderníssimo para a época – traça um painel do embate de opiniões entre o grupo de amigos. Questões que até hoje fazem parte da vida da maioria dos gays, como a dificuldade de relacionamentos monogâmicos em contraponto ao desejo de estabelecer uma união estável, aceitação da própria homossexualidade, convivência com a culpa católica, preocupação com a aparência física e o envelhecimento, entre outras. Isso quando não apenas os gays, mas a sociedade em geral vivia uma era de revolução e liberdade sexual, uma década antes do surgimento da AIDS. Ainda que, à primeira vista, pareça um filme que só interessaria ao público gay, Os Rapazes da Banda fala de angústias inerentes ao ser humano, seja homem, mulher, hetero ou homossexual. Mas as questões são tratadas num universo gay.

O autor da peça, Mart Crowley (primeiro à esquerda), com o elenco durante a produção do filme
Como aconteceu algumas vezes com trabalhos artísticos – especialmente no cinema – que alcançaram sucesso e visibilidade meteóricos, o elenco de The Boys in The Band sofreu uma espécie de "maldição". Os artistas ficaram marcados pela peça e pelo filme. Passaram de aplaudidos e elogiados a desempregados, drogados e excluídos. Dos nove atores integrantes do elenco, apenas dois estão vivos até hoje (Laurence Luckinbill e Peter White). Dos sete já falecidos, cinco morreram em decorrência da AIDS. O que aconteceu ao elenco não deixa de ser cruel e emblemático. O destino do autor Mart Crowley (hoje com 76 anos) também não foi dos mais felizes: caiu no ostracismo logo após o estouro da peça.


O DVD do filme foi lançado nos EUA no final de 2008. Aqui no Brasil, após um longo atraso, foi finalmente lançado pela Cult Classic em março deste ano. No ano passado o diretor americano Crayton Robey realizou o documentário Making the Boys, que mostra os bastidores da produção tanto da peça quanto do filme. Foi destaque do Festival Mix Brasil de 2011. Mesmo assim, The Boys in The Band permanece um filme desconhecido para a maioria do público (até mesmo entre os gays), o que é uma pena. Não apenas por ser um divisor de águas na história do cinema, mas também por ter sido a primeira produção a tratar abertamente da temática gay, sem precisar apelar para nenhuma cena de sexo sequer. Mais de quatro décadas depois, os diálogos contundentes e corrosivos de Os Rapazes da Banda continuam dividindo opiniões. Mais do que qualquer tentativa de choque visual.


Sexta básica de (in)utilidades

Receita da fondue (Tal como foi obtida dos documentos de M. Trolpet, oficial de justiça de Mondon, no cantão de Berna). – Estabeleça o número de ovos a usar a partir do número presumível de convivas. Tomará a seguir um pedaço de bom queijo de Gruyère pesando um terço do peso dos ovos e um pedaço de manteiga pesando um sexto desse peso. Quebrará e baterá bem os ovos numa panela, para depois por nela também a manteiga e o queijo ralado ou cortado em pedacinhos. Ponha a panela sobre um aquecedor bem quente e mexa com uma espátula, até que a mistura fique convenientemente espessa e mole. Ponha ou não um pouco de sal, dependendo se o queijo é mais ou menos velho, e uma boa porção de pimenta-do-reino, que é um dos caracteres positivos deste prato antigo. Sirva sobre uma travessa ligeiramente aquecida, faça servir o melhor vinho que será muito bem bebido e tudo será uma maravilha.


A Fisiologia do Gosto, de Brillat Savarin.
Edição baseada em exemplar publicado em 1848.
Ed. Salamandra, 1989.




Entrevista com Lori Lethin

Três crianças nascem durante um eclipse total do sol. Todas vivem normalmente, até que aos dez anos elas começam a matar sem motivo aparente. Mas quem desconfiaria de crianças tão amáveis, com rostinhos tão angelicais? Os únicos que descobrem a verdade são Joyce e seu irmão, o garoto Timmy. Joyce tem vinte e poucos anos e é a típica moça certinha: prestativa, estudiosa, responsável e ajuizada. Timmy tem 10 anos, é um bom garoto e, para seu azar, é coleguinha de escola dos três psicopatas mirins. Joyce e Timmy são implacavelmente caçados pelos pequenos possuídos. Mas não é nada fácil escapar do instinto assassino desse trio de pestes. Essa é a história de Aniversário Sangrento (Bloody Birthday, 1980), filme de Ed Hunt. Um irresistível clássico trash dos filmes de terror dos anos 80.


Timmy (K.C. Martel) e Joyce (Lori Lethin) em Aniversário Sangrento
O trio de psicopatas mirins de Aniversário Sangrento
Lori Lethin em Aniversário Sangrento

Joyce, a mocinha do filme, foi vivida pela atriz Lori Lethin. Nascida em 4 de agosto de 1955, em Los Angeles, Califórnia, Lori trabalhou intensamente na TV americana durante a década de 1980, participando de várias séries e filmes. Naquela época, viveu seu momento de scream queen ("rainha do grito"), emplacando um filme de terror atrás do outro.

Tudo começou no final dos anos 70, quando ela resolveu botar a mochila nas costas e partir para Hollywood. Na época Lori trabalhava como garçonete na Ilha de Santa Catalina, Califórnia. Ela se perguntava o que faria após o término de seu summer job (emprego de verão; prática muito comum entre os jovens americanos). Foi aí que ocorreu-lhe a ideia de trabalhar como atriz. "Parecia tão fácil!", diverte-se ela ao lembrar daqueles tempos. Dali em diante, as coisas tomaram um rumo natural.


O primeiro trabalho como atriz foi no episódio Panteras Transviadas, na 3ª temporada da série As Panteras, que foi ao ar em fevereiro de 1979. Logo em seguida viriam diversas outras participações em várias séries de TV bem populares da época como Os Gatões (1980), Magnum (1983), Esquadrão Classe A (1984) e dezenas de outras.

Lori com Jaclyn Smith em As Panteras
Lori com Tom Wopat e John Schneider em Os Gatões

Em 1981 Lori participou do média-metragem A Onda, produzido para a TV americana e baseado em em um fato real ocorrido numa escola da cidade de Palo Alto, nos EUA. Durante uma aula de História sobre o nazismo na Alemanha, alguns alunos insistiam em repetir que aquilo jamais aconteceria novamente no mundo. Então, o professor resolve fazer uma experiência pedagógica: cria todas as condições necessárias para o nascimento de um grupo e simula um partido fascista. Mas a experiência foge do controle e revela o lado perigoso do movimento criado. Originalmente produzido como um especial do canal ABC (ABC Afterschool Special), a emissora resolveu exibir o filme em horário nobre, como parte da série ABC Theater for Young Americans, em outubro de 1981. 

A Onda
Embora estivesse curtindo o sucesso na TV, foi no cinema que ela sentiu o gostinho da fama por participar de três filmes de terror que se tornaram cult: Aniversário Sangrento (1980), Depredador (1984) e De Volta à Escola dos Horrores (1987), onde atuou ao lado do então iniciante e futuro galã George Clooney. O filme, que combinava comédia e terror, foi precursor de sucessos como Pânico (Scream, 1996).

Lori em De Volta à Escola de Horrores
"Acho que foi por causa da minha carinha bem comum, sabe. O tipo inocente que sempre entra no corredor escuro mesmo quando todo mundo sabe que não deveria. Sem dúvida curti muito. Era tão divertido trabalhar em filmes de terror!", relembra ela. 

Apesar de Lori ser mais conhecida pelos clássicos cult Aniversário Sangrento e De Volta à Escola dos Horrores, uma de suas atuações mais elogiadas foi no telefilme O Dia Seguinte (The Day After, 1983), ao lado de Jason Robards, JoBeth Williams,  Steve Guttenberg, John Lithgow e outros. Lori viveu Denise, uma jovem noiva prestes a se casar que se vê no meio de uma catástrofe nuclear. 


O último trabalho de Lori no cinema foi no drama de 1999 A Viagem, com Claire Danes, Kate Beckinsale e Bill Pullman. Desde então deixou a carreira de atriz para se tornar psicóloga. Mas até hoje seu rosto ainda é popular nos EUA e ela é sempre lembrada por seus papéis na TV e nos filmes cult. Lori conversou comigo por e-mail e deu uma entrevista exclusiva para o blog. Mais: disse que ainda quer visitar o Brasil.


DANIEL COURI: Quando você decidiu seguir a carreira de atriz, tinha algum gênero específico em mente (como o terror, por exemplo) ou tudo aconteceu por acaso?
LORI LETHIN: Aconteceu mesmo por acaso! Na época [começo dos anos 80] havia um monte de filmes de terror sendo feitos... Parecia que a cada semana estreava um. Por isso eu me saía tão bem fazendo cara de espanto!

DC: Como você conseguiu o papel no episódio de As Panteras
LL: Foi minha primeira entrevista de trabalho. Eu não tinha ideia do que estava fazendo. Por fim o diretor de elenco disse "Lori, é só ler as falas". Aquilo era novidade pra mim! Creio que eles gostaram da minha aparência ingênua... Acho que foi por isso que consegui o papel. 

Lori em As Panteras
DC: Havia muitas outras garotas na disputa?
LL: Sim, tinha uma sala cheia de garotas fazendo testes para o papel.

DC: Você atuou em vários episódios de séries de TV, grande parte delas muito famosas não apenas nos EUA mas também mundo afora. No entanto, naquela época, a televisão não era tão "respeitada" como um veículo para atores e atrizes. Hoje as coisas são bem diferentes. Artistas renomados têm participado cada vez mais e recebido elogios pelos trabalhos. Não só o público como também a crítica os aplaude. Como você encara essa mudança de atitude em relação à TV nos EUA? 
LL: A TV a cabo propiciou a expansão da televisão como um veículo de respeito. Com isso, os papeis foram ficando mais interessantes para os artistas. Quando comecei, havia basicamente cinco ou seis estações de TV. Veja como as coisas mudaram. Acho isso ótimo. Há uma gama enorme de programação de qualidade nos canais a cabo.

Lori com Elliot Gould em Plantão Médico
DC: Quando você se tornou psicóloga? Essa área já te atraía ou seu interesse apareceu mais tarde?
LL: Sempre me interessei pelo comportamento humano. Acho que era isso que tornava o trabalho de atriz tão atraente, no meu caso. Eu era capaz de entrar na alma de outras pessoas e trazer aquela experiência para a tela. Terminei minha faculdade de Psicologia há um ano e agora estou colocando o que aprendi em prática para obter minha licença. É um trabalho muito gratificante.

DC: Você tem três filhos. Quais as idades deles?
LL: Eles têm 17, 23 e 30.

DC: Como reagem quando ouvem que a mãe já foi "rainha do grito"? Eles acham divertido?
LL: Eles adoram e acham o máximo esse negócio de "rainha do grito". Afinal, quantos jovens têm a chance de dizer que a mãe trabalhava como atriz de filmes cult de terror? Isso é muito legal. 

DC: Dos três filmes de terror nos quais você atuou, qual é seu preferido?
LL: De Volta à Escola de Horrores. Não só por causa do George Clooney (risos). Foi tão divertido fazer três personagens diferentes. Para diferenciá-las, eu usava uma peruca bem vagabunda (muito brega, eu adorava!). Também achei um barato o fato do filme ter sido uma continuação de um filme que nunca existiu! Os outros atores também eram ótimos. Foi como participar de uma colônia de férias.

Lori em De Volta à Escola dos Horrores
George Clooney em De Volta à Escola dos Horrores
DC: Em Aniversário Sangrento sua personagem corria perigo quase o tempo todo. Você usou dublês?
LL: Fiz todas as cenas. Era um filme de baixo orçamento. Sempre fui minha própria dublê. A impressão que tenho é que em todos os papéis que fiz, estava sempre correndo e fugindo de alguém!


Sempre correndo perigo em Aniversário Sangrento

DC: Como você se sente quando vê uma nova geração descobrindo seus filmes de terror e se empolgando com seu trabalho?
LL: Ah, eu adoro! Os filmes de terror dos anos 80 têm uma tipo e uma aura muito específicos... São quase cômicos comparados ao estilo dos filmes de terror de hoje.

DC: Oque fez com que você se afastasse do trabalho de atriz?
LL: Essa é fácil. Eu simplesmente queria criar meus filhos. Foi uma questão de sentimento. Adoro ser mãe!

Lori em 2010
DC: Sente saudades de ser atriz?
LL: Às vezes sinto... Mas adoro trabalhar com pessoas nesta nova carreira que escolhi. Trabalho para uma organização sem fins lucrativos, então minha profissão fica ainda mais significativa, especialmente neste período da minha vida.


FILMOGRAFIA COMPLETA

Filmes:

Aniversário Sangrento (Bloody Birthday, 1980)
A Espera de Golias (Goliath Awaits, 1981)
O Dia Seguinte (The Day After, 1983)
For Love or Money (1984)
Depredador (The Prey, 1984)
Means and Ends (1984)
De Volta à Escola de Horrores (Return to Horror High, 1987)
O Triângulo Prateado (The Platinum Triangle, 1989)
A Viagem (Brokedown Palace, 1999)

Lori em De Volta à Escola de Horrores



Média-metragens:

A Onda (The Wave, 1981)
The Magic Boy's Easter (1989)

A Onda














Participações em séries de TV:

As Panteras (Charlie's Angels / Episódio Panteras Transviadas - Teen Angels, 1979)
A Man Called Sloane (Episódio Architect of Evil, 1979) 
Barnaby Jones (Episódio The Final Victim, 1980)
Os Gatões (The Dukes of Hazzard / Episódio Southern Comfurts, 1980)
Freebie and the Bean (Epsiódio The Seduction of the Bean, 1980)
Palmerstown, U.S.A. (Episódio Vendetta, 1981)
Hill Street Blues (Episódio Rain of Terror, 1982)
Magnum (Magnum, P.I. / Episódio A Grande Rajada - The Big Blow, 1983)
The Mississippi (Episódio G.I. Blues, 1983)
This Is the Life (Episódio The Gathering Dark, 1984)
The Master (Episódio Out-of-Time-Step, 1984)
Esquadrão Classe A (The A-Team / Episódio Os Terroristas - Harder Than It Looks, 1984)
Plantão Médico (ER / Episódio Sentimental Journey, 1984)
Arnold (Episódio A Special Friend, 1985)
Crazy Like a Fox (Episódio Desert Fox, 1985)
The Insiders (Episódio Gun Runners, 1985)
Matlock (Episódio Diary of a Perfect Murder, 1986)
Assassinato por Escrito (Murder She Wrote / Episódio If a Body Meet a Body, 1986)
Stingray (Episódio Abnormal Psych, 1986)
Throb (Episódio The Party, 1986)
Starman (Episódio Dusty 1987)
O Lobisomem ataca de novo (Werewolf / Episódio Eye of the Storm, 1987)
Ohara (Episódio And a Child Shall Lead Them, 1987)

Lori com Andy Griffith em Matlock




















Agradecimentos: Nathan Johnson 

Sexta básica de (in)utilidades


Reuniões – Outrora, após o jantar ou durante o serão, os homens reuniam-se no “fumoir”, ou na sala de jogo, enquanto as senhoras permaneciam na sala. Hoje, já não há necessidade de separar os convidados, pois as senhoras fumam quase tanto quanto os homens... Para o êxito de uma reunião, é preciso que os convidados se sintam à vontade, e as conversas sejam animadas e variadas, entre todos.


Fonte: Dicionário do Lar – Vol. IV
Editora Logos, 1964.

Empilhamento já!


Vivendo - ou melhor, vendo TV - e aprendendo. Esta semana eu estava assistindo ao Mais Você sem prestar muita atenção, enquanto tomava o café da manhã. De repente uma matéria sobre vício em redes sociais e aplicativos em telefones celulares me chamou a atenção. Não que eu seja um dos viciados, longe disso! Tenho enorme implicância com essa mania irritante da atualidade.

A reportagem do programa de Ana Maria Braga foi às ruas de São Paulo para testar o grau de vício das pessoas. E mostrou um jogo chamado "phone stacking" (empilhamento de telefone), para quem não consegue largar o celular ou smartphone nem na hora das refeições ou mesmo em uma mesa de bar. O joguinho funciona assim: um grupo de amigos empilha os celulares na mesa e tem que aguentar firme até o final da refeição (ou comemoração) sem checar os aparelhos. Quem não resistir e pegar o celular, perde a competição e tem que pagar a conta toda sozinho. Se todos resistirem numa boa, a conta é dividida normalmente. 

Apesar de achar uma maluquice, é muito válida essa ideia de tentar diminuir o vício que atinge grande parte da população mundial hoje em dia. Nos Estados Unidos o "phone stacking" já virou moda, mas ainda não é tão difundido aqui Brasil. Eu sou mais radical. Por mim, os bares e restaurantes deviam proibir o uso dessas geringonças, principalmente durante uma confraternização ou um jantar. Deviam pendurar umas placas assim: "Não são permitidos animais e nem celulares". Uns quinze anos atrás ninguém era escravo desses aparelhos. Era normal se reunir com amigos para almoçar, beber ou conversar sem essa ânsia doentia para olhar mensagens do Twitter ou do Facebook.

Além de extrema indelicadeza, é uma coisa totalmente fora de propósito. Outro dia eu estava em um bar com alguns amigos e observava um casal de uma mesa próxima. Os dois devem ter permanecido lá por mais de duas horas, sentados e mexendo em seus respectivos celulares. De vez em quando pediam um vinho, trocavam duas ou três palavras e continuavam com o vício eletrônico. Pareciam muito entusiasmados. Sei que eu não tinha nada com a vida deles, mas aquilo me incomodou e me deixou muito intrigado. Por que diabos um casal de namorados, jovens e bonitos, sai de casa e vai a um bar badalado e caro para ficar feito um par de idiotas, cada um hipnotizado por seu telefone celular? 

Em outra ocasião, num restaurante, um grupo de jovens em uma mesa parecia comemorar alguma data especial. Todos empunhavam seus celulares, claro. Quando os pratos chegaram (pareciam muito apetitosos, por sinal) ninguém tocou em nada. O que fizeram? Começaram a fotografar tudo, dos mais diversos ângulos. Coisa mais esquisita! Agora também é moda fotografar a comida antes de comê-la. Aliás, agora é moda fotografar TUDO pelo celular. O poste, o meio fio, a vista da janela dos fundos do quarto de hóspedes, o vira-lata no meio da rua, a xícara de café na mesa da lanchonete... 

"Quero que você desligue seu celular"
Ninguém mais parece se lembrar, mas a função primordial do telefone celular é fazer e receber ligações. Não estou cuspindo no prato em que como, afinal o celular quebra muitos galhos e tem seu lugar garantido na lista de utilidade do mundo moderno. Mas começar a viver em função disso? Conectado 24 horas por dia, 7 dias por semana? Ter a 'obrigação' de ler um e-mail de trabalho que chega às 3h30 da madrugada? Responder imediatamente as mensagens de texto de um amigo carente que resolve te contar a vida dele bem na hora da novela? Esse mundo de hoje cria as "urgências" mais malucas. Comigo não, violão. Eu mesmo nunca me dei ao trabalho de comprar um aparelho moderno e cheio de funções. Tudo o que quero (e uso) é um celular bem simples, daquele tipo que jamais será roubado onde quer que eu o deixe. Nada cobiçado, ele possui apenas as as funções básicas de um telefone móvel e é assim que eu gosto.

E aquelas pessoas que começam a telefonar para os outros antes das 8h da manhã? Chega a ser hilário. Danuza Leão explica em Na Sala com Danuza (Companhia das Letras, 2007) que é proibido telefonar antes das dez da manhã e depois das onze da noite (desde que você seja uma pessoa normal). Pena que hoje em dia ninguém respeite mais a privacidade alheia. Aliás, vale a pena ler (e reler, reler, reler) o capítulo 19 (Quem fala?), onde Danuza ensina:

Celular é uma coisa quase particular. Evite ligar para quem quer que seja, a não ser em caso de necessidade. Também não pergunte o número do celular de ninguém, a pessoa só dá se quiser. Existem algumas que dão o número para todo mundo, pois a-do-ram que, durante um almoço, o celular toque dezoito vezes, para que todos vejam o quanto elas são assediadas.

As pessoas não conseguem mais se olhar nos olhos porque eles estão sempre grudados na tela do celular, nos aplicativos, nas mensagens, nas fotos... Nos cinemas e teatros é ainda mais revoltante, fico indignado. Grande parte do público não para de checar as malditas mensagens e chamadas durante a peça ou o filme. E algumas ainda deixam o aparelho tocar! Se você não consegue ficar uma hora e meia dentro de um cinema sem olhar o celular de 15 em 15 minutos, algo está muito errado. Do jeito que estamos indo, não sei aonde vamos parar. 

Fim de uma era mesmo


Ainda nem me acostumei com a triste notícia da morte de Donna Summer, ocorrida no último dia 17, e ontem outra perda no mundo da música foi anunciada: Robin Gibb, dos Bee Gees. O trio já havia sido desfalcado em 2003, quando o outro irmão, Maurice, faleceu. Agora restou apenas Barry, o mais velho. (Andy Gibb, caçula dos irmãos Gibb que trilhou carreira solo, já havia falecido em 1988).

Donna Summer e Robin Gibb: duas perdas de maio de 2012
Uma triste coincidência que dois artistas como Donna Summer e Robin Gibb - que brilharam intensamente na época das discotecas - tenham partido quase ao mesmo tempo. Apesar de terem se reinventado após o declínio do movimento disco, no começo dos ano 80, tanto Donna quanto os Bee Gees até hoje são associados à disco music, apesar de terem superado esse rótulo há décadas.


Artistas que com seu talento (eram cantores, compositores, produtores) construíram uma carreira sólida no mundo da música, venceram turbulências em diferentes épocas e conquistaram o respeito da crítica. Afinal, não é fácil para um cantor ou grupo ser levado a sério depois de fazer imenso sucesso com hits da era disco. Donna Summer e os Bee Gees souberam fazer isso como poucos.

Donna Summer e Andy Gibb na premiação do Grammy de 1978
Donna e os Bee Gees chegaram a cantar juntos em um grande show beneficente, A Gift of Song - The Music For UNICEF Concert, em janeiro de 1979. Na ocasião, os Bee Gees foram mestres de cerimônia da festa, que aconteceu na Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York. O evento abria as comemorações que declaravam 1979 como o Ano Internacional da Criança. O objetivo era arrecadar fundos para programas de combate à fome do UNICEF - órgão da ONU (Organização das Nações Unidas) responsável pelo amparo e bem-estar da criança no mundo.


Além dos Bee Gees e Donna Summer, outros grandes artistas da época (ABBA; Rod Stewart; Olivia Newton-John; Andy Gibb; Earth, Wind & Fire; John Denver; Kris Kristofferson e Rita Coolidge) também participaram do grande show. Cada um doou os direitos autorais de uma canção para o UNICEF.

No ano passado Robin Gibb fora submetido a uma cirurgia para corrigir uma obstrução intestinal (o mesmo problema que em 2003 provocou a morte de seu irmão gêmeo, Maurice). Mas depois de anunciar que estava curado, o músico descobriu um câncer no cólon e no fígado, que rapidamente se desenvolveu, agravado por uma pneumonia.

No caso de Donna, ela sofria de câncer de pulmão e acreditava ter desenvolvido a doença depois de inalar partículas tóxicas durante os ataques terroristas de 11 de setembro [2001], em Nova York. 

Além de terem atingido o auge do sucesso na década de 1970, tanto Donna Summer quanto os Bee Gees colecionaram vários prêmios Grammy e muitos milhões de discos vendidos. Ela foi a única a ter três discos duplos consecutivos em primeiro lugar na lista de mais vendidos. Foi também a primeira cantora com quatro compactos N°1 em um período de 13 meses, de acordo com o Rock 'n' Roll Hall of Fame, onde foi homenageada neste ano. Já Robin Gibb entrou para o Hall da Fama de compositores em 1994, assim como os Bee Gees foram incluídos três anos mais tarde.

Bee Gees
No Fantástico de janeiro de 1979, Cid Moreira anunciava o clipe de Last Dance, sucesso que Donna lançara no ano anterior como parte da trilha sonora do filme Até Que Enfim é Sexta-Feira (Thank God It's Friday): "Em todas as listas de Melhores do Ano em 1978, nos EUA e na Europa, em primeiro ou segundo lugar, dividindo com os Bee Gees os prêmios de voz e de discos, aparece o nome desta cantora: Donna Summer".


Donna Summer canta Last Dance no Fantástico (1979)
Na década de 1980, paralelamente aos Bee Gees, Robin decidiu investir também na carreira solo. Lançou três álbuns: How Old Are You? (1983), com o hit Juliet; Secret Agent (1984), famoso pela canção Boys Do Fall in Love; e Walls Have Eyes (1985), que emplacou Like a Fool.


O último álbum dos Bee Gees foi This Is Where I Came In, de 2001. Em 2008 Robin seguiu em sua carreira solo se apresentando em vários países e cantando sucessos seus e dos Bee Gees. O último álbum de Donna Summer, também de 2008, foi Crayons.



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