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Tem Playboy no Carnaval do Brasil

Hugh Hefner

Depois de Paris Hilton e Sandy (!), a cerveja Devassa resolveu ousar na nova campanha e chamar Hugh Hefner, um verdadeiro conhecedor das mulheres, para escolher a próxima garota-propaganda da marca. 

Se é que alguém ainda não sabe, Hefner é o lendário fundador da Playboy, a revista masculina mais famosa do mundo. Aos 85 anos e ainda na ativa, o magnata americano virá para o Brasil pela primeira vez dar sua opinião sobre a nova "Garota Devassa".

Famoso por casar e descasar como quem troca de cueca, Hefner tem sua fortuna pessoal avaliada em mais de 43 milhões de dólares e vive cercado por um verdadeiro harém de coelhinhas. Foi divulgado hoje que o bom velhinho vai aproveitar a viagem ao Brasil para cair no samba. 

Embora exista nos EUA desde 1953, a primeira edição brasileira da Playboy só surgiu em 1975, com o título de A Revista do Homem (a designação original tinha sido vetada pela censura da época). Em 1977, com o gradual afrouxamento do regime militar, a revista conseguiu pela primeira vez estampar na capa a famosa logomarca de Hugh Hefner: o coelhinho de gravata borboleta. Mas só a partir de julho de 1978 a Playboy pôde estampar seu verdadeiro título nas bancas.

E como recordar é viver, vamos dar uma olhada rápida na edição de Carnaval da Playboy de fevereiro de 1980. Para começar, a garota da capa era uma ilustre desconhecida. Tanto que seu nome nem aparece. A capa anuncia ainda "As mulatas das escolas (nuas como nunca!)". Hoje em dia ninguém precisa mais comprar Playboy para vê-las nuas! Basta assistir ao desfile pela TV ou ir pessoalmente ao sambódromo.

Outros Carnavais: a Playboy de fevereiro de 1980
"Liza Minnelli, Candice Bergen, Ursula Andress, Brigitte Bardot: Veja por que 9 entre 10 estrelas do cinema preferem o macho brasileiro". Com os homens cada vez mais adeptos das lipoaspirações, depilações a laser e salões de beleza, temo que o "macho brasileiro" de hoje não seja assim tããão "macho".

"Vem aí a TV a cabo brasileira: você vê tudo o que quiser e até faz compras sem sair de casa". Se naquela época eles soubessem que com a internet poderíamos realmente ver TUDO e um pouco mais, e ainda fazer compras sem sair de casa...

Detalhe: no Carnaval 2012 do Rio, Hefner virá acompanhado de suas duas namoradas, as "coelhinhas" Anna Sophia Berglund e Shera Bechard. Nada demais para quem já teve sete (!) relacionamentos simultâneos. É mole? Como diria José Simão, "é mole mas sobe".


Aquela do tapa-olho

Se hoje o SBT revive as reprises das reprises das novelas mexicanas - em especial as protagonizadas por Thalia - no começo dos anos 90, antes de Thalia se tornar a diva das telenovelas mexicanas, Silvio Santos presenteava o público com outras novelas daquele país. A parceria sempre foi com a Televisa, uma das maiores redes de TV no México. Logo no início do SBT, a emissora decidiu investir pesado na compra de produções mexicanas. Em 1982 estreava Os Ricos Também Choram. Em 1984, foi a vez da febre Chispita tomar conta do Brasil. Depois vieram inúmeras outras como Rosa Selvagem, Simplesmente Maria, Topázio, A Fera, Carrossel, Eu Não Acredito Nos Homens, Quinze Anos etc. Nem todas de grande sucesso, mas boa parte delas garantiu ótimos índices de audiência para o canal de Silvio Santos.

Com histórias bem leves e de forte apelo emocional, essas novelas - totalmente diferente das nossas - atraíram um enorme público brasileiro. O fato de serem novelas diferentes das nossas não as torna piores. É claro, se compararmos com produções do Brasil, as mexicanas são menos complexas, mais baratas e as histórias bem mais simples e ingênuas. Muitas vezes são engraçadas aos nossos olhos, exageradas, histriônicas e muito semelhantes entre si. O que para nós parece kitsch, para eles é absolutamente normal. Faz parte da cultura do México e é assim que as novelas fazem sucesso com o público de lá. São dois produtos diferentes, por isso acho injusto dizer que são novelas 'ruins'. São diferentes das nossas e ponto. Afinal também há um monte de novelas brasileiras ruins, nem todas são obras-primas. 

Mas eu quero falar mesmo é de Ambição, na minha humilde opinião de noveleiro uma das melhores novelas que já assisti. As pessoas têm medo ou vergonha de admitir que já viram e gostaram de alguma novela mexicana, ou de várias. Eu não tenho o menor problema com isso. No comecinho da minha adolescência acompanhei Ambição, exibida pelo SBT entre dezembro de 1991 e março de 1992. Era uma trama sensacional de suspense, cheia de reviravoltas, mistérios e assassinatos. Originalmente intitulada Cuna de Lobos e transmitida pela Televisa no México, entre 1986 e 1987, a novela hoje é considerada um clássico. Seu final (mais especificamente a última cena) é um dos mais surpreendentes da história das novelas mexicanas.


María Rubio (esq.), Alejandro Camacho e Rebeca Jones
Não vou descrever o enredo aqui porque o texto ficaria longo demais, mas posso dizer que foi a primeira (e única) novela que assisti cuja protagonista era uma vilã psicopata nos moldes de uma serial killer. Perto dela as maldades de Odete Roitman parecem brincadeira de criança. María Rubio viveu a pérfida Catalina Creel (aqui no Brasil o nome foi adaptado para 'Catarina'), que usava um tapa-olho e não hesitava em cometer os crimes mais hediondos para garantir que a herança de seu falecido marido - assassinado por ela - ficasse apenas para Alexandre (Alejandro Camacho), seu filho favorito, e nada para o enteado José Carlos (Gonzalo Vega). A parte engraçada é que Catarina sempre usava o tapa-olho combinando com o tecido do vestido.

O "tapa-olho fashion week" de Catarina Creel
O mais aflitivo é que desde o começo o telespectador sabe que Catarina é a assassina fria e calculista, mas ninguém na novela sabe. Acompanhamos seus crimes e planos diabólicos e, por incrível que pareça, torcemos genuinamente para que a mocinha sofredora, a pobre Leonora (Diana Bracho), escape da teia de maldades e assassinatos de Catarina. O público sofria junto com Leonora, era de cortar o coração. Quem quiser saber sobre o enredo detalhadamente, basta olhar na Wikipedia. Segundo o blog Televisa Brasil, um remake de Cuna de Lobos está sendo avaliado.

Em sentido horário: Alejandro Camacho,  Gonzalo Vega e Diana Bracho
Escrita por Carlos Olmos (1947-2003), Ambição era tão popular no México que na noite do último capítulo as ruas da Cidade do México, sempre cheias por engarrafamentos homéricos - ficaram desertas. Ninguém saiu de casa, todos estavam grudados na televisão. Outra curiosidade: a novela ainda contou em seu elenco com Carmen Montejo, considerada a primeira atriz do México. Tanto que na abertura original seu nome aparece assim: "Con la primera actriz Carmen Montejo".


Jacqueline Laurence em Aquele Beijo
Apesar de inúmeras brincadeiras e paródias, Ambição é um marco da teledramaturgia mexicana, assim como   a vilã Catarina Creel. E pelo visto ela fez escola, pois Miguel Falabella prestou uma singela homenagem em sua atual novela Aquele Beijo. Mirta, a personagem de Jacqueline Laurence, também usa um tapa-olho combinando com a cor da roupa. "Acho que Miguel se inspirou nela", contou Jacqueline ao jornal Extra em 01/11/2011. "E tenho amigas que quando me viram disseram: 'Igual aquela mulher da novela mexicana!'. Muita gente fala que não assiste, mas no fundo, todo mundo vê", diverte-se.

Versão brasileira... Parte 2

Há dois anos fiz um post sobre traduções inusitadas para títulos de filmes lançados no Brasil. Como sempre, os mais engraçados eram os nomes brasileiros que os filmes recebiam entre os anos 30 e 60. Não que hoje os títulos "exóticos" tenham se extinguido, mas eles diminuíram consideravelmente. Podem até não fazer a tradução literal - que muitas vezes é difícil - mas pelo menos tentam conservar a idéia original do filme. Nem sempre conseguem, isso é fato. Mas algumas tentativas são válidas.

Por exemplo, o filme Red Salute (1935), do diretor Sidney Lanfield, estrelado por Barbara Stanwyck e Robert Young, recebeu aqui no Brasil o nome "Bom Partido para Dois". A expressão red salute (que ao pé da letra é "saudação vermelha") na verdade significa o gesto de levantar a mão com o punho fechado, a saudação política dos ativistas sociais de esquerda (comunistas, anarquistas, socialistas...). O título em português, apesar de não traduzir a idéia da expressão original, brinca com a política, fazendo alusão a partido político - "bom partido", expressão também usada quando se quer ressaltar as qualidades de um(a) possível pretendente.

Sean Penn (centro) em Picardias Estudantis (1982)
Outro caso meio complicado de tradução é Fast Times at Ridgemont High (1982), de Amy Heckerling. Um dos primeiros filmes da carreira de Sean Penn, deu visibilidade ao astro, na época um jovem ator ainda desconhecido. O título brasileiro foi Picardias Estudantis, que apesar de captar bem o clima do filme, não corresponde à tradução exata. A expressão "fast times" dá margem a várias interpretações. "Fast", além de "rápido" (tradução mais conhecida), também pode significar "período de jejum", "jejuar", "a fim de diversão" e até "a fim de sexo", embora seja inegavelmente um uso antigo da palavra. Assim, "Fast Times at Ridgemont High" poderia ser traduzido como "Tempos quentes na Escola Ridgemont" ou quem sabe "Bons tempos na Escola Ridgemont", embora ainda não sejam boas opções, além de soarem meio forçadas. "Fast times", nesse caso, também pode brincar com a idéia de "período sem sexo" ou "período a fim de sexo", já que  o filme, recheado de sexo, drogas e rock´n roll, retrata as aventuras de um grupo de colegiais da Califórnia. Como fica complicado captar o clima do filme em português, o título em português virou Picardias Estudantis ("picardia", palavra totalmente datada e fora de uso, significa trapaça, pirraça, travessura, malícia).


Listei mais alguns nomes engraçados. Quem quiser pode enviar mais nomes de filmes para montarmos uma nova lista futuramente. O primeiro é o nome que o filme recebeu no Brasil, o segundo é o título original (em inglês) e o terceiro é a tradução real para o português. 

A Águia Solitária - The Spirit of St. Louis (O espírito de St. Louis)
A Comédia dos Acusados - After the Thin Man (Atrás do homem magro)
A Gaivota Negra - Frenchman's Creek (O riacho do francês)
A Lei do Mais Forte - The Oklahoma Kid (O garoto de Oklahoma)
A Morte Convida Para Dançar - Prom Night (Noite de formatura)
A Morte Ronda a Pantera - Sunburn (Tomar sol)
A Mulher Faz o Homem - Mr. Smith Goes to Washington (O Sr. Smith vai a Washington)
A Mulher que Não Pecou - Darling, How Could You! (Querida, como você pôde!)
A Vida é Uma Dança - Ten Cents a Dance (Dez centavos por dança)
Alma Sem Pudor - Born to Be Bad (Nascida para ser má)
Amei um Assassino - Kiss the Blood Off My Hands (Beije o sangue das minhas mãos)
Balas Contra a Gestapo - All Through the Night (A noite inteira)
Bonequinha de Luxo - Breakfast at Tiffany's (Café da manhã na Tiffany's)
Cativa e Cativante - A Damsel in Distress (Uma dama em desespero)
Conflito de Duas Almas - Golden Boy (Garoto dourado)
Crepúsculo de uma Raça - Cheyenne Autumn (Outono cheyenne)
Curtindo a Vida Adoidado - Ferris Bueller's Day Off (O dia de folga de Ferris Bueller)
De Amor Também se Morre - The Constant Nymph (A ninfa constante)
Drogas Infernais - The Big Shakedown (A grande extorsão / A grande busca)
Escravos da Terra - The Cabin in the Cotton (A cabana na plantação de algodão)
Esposa Improvisada - This Is the Night (Esta é a noite)
Esse Encanto Irresistível - From This Day Forward (Deste dia em diante)
Famintas de Amor - Until They Sail (Enquanto eles navegarem)
Férias do Barulho - Private Resort (Resort particular / Clube particular)
Ídolo, Amante e Herói - The Pride of the Yankees (O orgulho dos Yankees)
Ingratidão - Of Human Hearts (De corações humanos)
Minha Mãe É Uma Sereia - Mermaids (Sereias)
Mulheres Perfeitas - The Stepford Wives (As esposas de Stepford)
Música e Lágrimas - The Glenn Miller Story (A história de Glenn Miller)
Nascida Para Casar - Made For Each Other (Feitos um para o outro)
Negócio em Família - The Working Man (O homem trabalhador)
Nosso Amor de Ontem - The Way We Were (Do jeito que nós éramos)
Núpcias de Escândalo - The Philadelphia Story (A história da Filadélfia)
Paraíso Infernal - Only Angels Have Wings (Só os anjos têm asas)
Paraíso Perdido - September Affair (Romance de setembro)
Quadrilha de Sádicos - The Hills Have Eyes (As montanhas têm olhos)
Que Papai Não Saiba - Vivacious Lady (Dama vivaz)
Região do Ódio - The Far Country (O país distante)
Sede de Justiça - Midnight (Meia-noite)
Sede de Escândalo - Two Against the World (Dois contra o mundo)
Serpente de Luxo - Baby Face (Carinha de bebê)
Sublime Tentação - Friendly Persuasion (Persuasão amigável)
Tragédia no Circo - The Wagons Roll at Night (Os vagões rolam à noite)
Triunfos de Mulher - Night Nurse (Enfermeira noturna)
Tú és Única - Sinners in the Sun (Pecadores ao sol)
Vivendo em Dúvida - Sylvia Scarlett (Sylvia Scarlett)

Saudades da pantera

Se estivesse viva, Farrah Fawcett completaria hoje 65 anos. Dona de uma beleza inigualável e um dos sorrisos mais bonitos dos anos 70, a eterna pantera nos deixou há pouco mais de dois anos, vítima de um câncer violento, contra o qual lutou bravamente até o fim. (Na época fiz um post aqui no blog).

"Apesar da dor insuportável e da incerteza, jamais me ocorreu deixar de lutar, nunca," declarou a atriz, que deixou a sua batalha gravada no documentário Farrah Fawcett: A Jornada Contra o Câncer (2009). O que ficou dela, além da lembrança de sua beleza e seu carisma, foi seu exemplo de esperança e perseverança mesmo nas circunstâncias mais improváveis.

Várias vezes indicada aos prêmios Emmy e Golden Globe, ganhou fama internacional ao interpretar a detetive particular Jill Munroe na série de TV As Panteras (Charlie's Angels), verdadeira febre da década de 1970. Também foi ícone da cultura pop, com seu indefectível penteado, copiado por milhões de mulheres no mundo todo e cujo pôster quebrou recordes de venda, tornando-a um símbolo sexual.


A "febre Farrah" foi tamanha que seu rosto estava estampado em quase todas as capas de revistas, pôsteres, jornais e discos no final dos anos 70, como mostra a seção "Gente" da revista Veja de 08/06/77:


Curiosamente Farrah faleceu no mesmo dia em que o rei do pop Michael Jackson, fazendo com que a notícia de sua morte fosse ofuscada na grande maioria dos jornais do mundo. Copiada pelas mulheres e desejada pelos homens, ela será eternamente lembrada como a "pantera" que todos amaram.


Onde brincam as crianças?

Sítio do Pica-Pau Amarelo
Quando eu era criança - não faz tanto tempo assim, foi nos anos 80 - a TV oferecia uma infinidade de programas infantis maravilhosos, educativos, divertidos, inteligentes e de alta qualidade. A companhia da "babá eletrônica" era garantia de momentos ótimos para a criançada. Tinha o Sítio do Pica-Pau Amarelo, A Turma do Balão Mágico, Daniel Azulay e a Turma do Lambe-Lambe, Rá Tim Bum e, já no começo da minha adolescência, a TV Colosso (na minha opinião, um dos últimos programas infantis de qualidade). Isso sem falar nos especiais da Globo como Plunct, Plact, Zuuum, PirlimpimpimVinícius para Crianças (mais conhecido pelo nome do disco que serviu de inspiração para sua criação, A Arca de Noé) entre outros.



A partir da segunda metade da década de 1980 teve início a era das apresentadoras infantis, com Xuxa reinando absoluta, seguida por Mara Maravilha, Angélica e vários "clones" de menor sucesso. Até Sérgio Mallanadro entrou nessa. Ainda era divertido, mas a qualidade foi caindo gradativamente e os programas tornaram-se muito repetitivos. Os desenhos, no entanto, eram ótimos (são tantos que nem vou começar a citá-los). Havia neles um ar de inocência e ingenuidade que fazia nossa imaginação voar alto. Pode parecer clichê, OK, eu admito. Mas os desenhos de hoje são 'adultos' demais. Têm pouca fantasia e muita violência.

Daniel Azulay (TV Cultura/TVE) e a Turma do Balão Mágico (Rede Globo)
Mas para mim o pior mesmo foi a programação infantil ter perdido tanto espaço na nossa TV. No Livro do Boni (Ed. Casa da Palavra, 2011), no capítulo dedicado à história dos programas infantis na televisão, o próprio Boni explica: "Criança não tem poder aquisitivo, portanto, não é um consumidor direto e não tem poder decisório sobre as compras. No máximo, pede alguma coisa que deseja ou repete comerciais que viu na televisão, influenciando pais e responsáveis. Para os veículos de publicidade, o que conta é o cliente. Como não existem muitos anunciantes interessados no público infantil, há cada vez menos programas para crianças. Uma pena. O engraçado é que no começo da televisão as emissoras e os anunciantes se preocupavam mais com esse público".

Rá Tim Bum (TV Cultura)
Lamento pelas crianças de hoje, que já nascem em meio à urgência e à crueza da internet. Há pouco espaço para os sonhos e a criatividade. A realidade virtual é esfregada na cara dos pequenos desde cedo, impondo desejos e quase não deixando brecha alguma para a fantasia. Tudo é "real" demais, perfeito demais, rápido demais. Só a vivência da infância é que fica de menos. Atualmente quase não vemos mais propagandas de brinquedos porque os brinquedos das crianças são os mesmos dos adultos: iPhone, iPad, smartphone, tablet... E dá-lhe internet! Com essa artilharia pesada, qual criança vai se interessar por um pega-varetas, um quebra-cabeça ou uma boneca que manda beijinhos? Livros então, nem pensar. Assistir TV? Tampouco. Em vez disso elas se confrontam, na maioria das vezes precocemente, com o mundo virtual e suas armadilhas fáceis.

E pensar que no comecinho dos anos 70, Cat Stevens, sempre visionário, já cantava: 

I know we've come a long way
We're changin' day to day,
But tell me, where do the children play?

[Sei que percorremos um longo caminho / Estamos mudando dia a dia / Mas me diga, onde brincam as crianças?]

Detalhe da capa do álbum de Cat Stevens, Tea for the Tillerman (1970)

Sucesso sem fim

"Por causa do gênero que escrevo, serei logo esquecida", costumava dizer Agatha Christie (1890-1976). Um exagero provocado pelo excesso de humildade dessa mulher extraordinária, que teve uma história de vida repleta de fatos interessantes e nunca se deixou deslumbrar pelo sucesso de sua obra. Em 85 anos de vida, Agatha escreveu 87 livros e 17 peças de teatro, com tradução para mais de 100 idiomas. Sem falar nos romances publicados sob o pseudônimo de Mary Westmacott.

Mas sua biografia é riquíssima e minha idéia não é condensá-la aqui, tarefa que seria impossível dada a riqueza de acontecimentos pitorescos e curiosos na vida da autora. Aos admiradores da "Rainha do Crime", sugiro Agatha Christie Autobiografia (Ed. Nova Fronteira, 1979). Aliás, no Brasil, a Nova Fronteira garimpou o filão e manteve os livros de Agatha sempre nas listas dos mais vendidos durante os anos 70. Na verdade, Agatha nunca sai de moda e sua legião de fãs se renova a cada década.

A bola da vez é a editora L&PM, que lançou este mês, na coleção L&PM Pocket, mais um clássico de Agatha: Noite sem Fim (Endless Night). Na época da publicação original, em outubro de 1967, Agatha admitiu em entrevista à revista The Times que Noite sem Fim “é muito diferente de tudo o que fiz até hoje – mais sério, realmente uma tragédia. (...) Em geral, levo três ou quatro meses para fazer um livro, mas escrevi Noite sem Fim em seis semanas. Se conseguimos escrever rapidamente, o resultado é mais espontâneo. (...)"


Quando escreveu o livro, a autora estava com 75 anos e surpreendeu a crítica ao dar voz a Michael Rogers, um rapaz de classe operária. Ele se casa com uma rica herdeira norte-americana e vai morar com ela no Campo do Cigano, um lugar que parecia perfeito para começar uma vida a dois. Mas como nos romances de Agatha Christie nada é o que parece ser, o Campo do Cigano guarda grandes mistérios. O jovem casal é alertado por uma cigana sobre os “perigos” de viverem naquele local “amaldiçoado”. Mesmo assim, eles permanecem ali. É quando um acidente fatal acontece e uma trama monstruosa começa a se desenrolar.


Isso é suficiente para aguçar a curiosidade dos interessados em Agatha, já que não quero estragar as surpresas dessa leitura tão envolvente. Li esse livro há muitos anos, quando era adolescente, e achei um dos mais marcantes da autora. Porque mesmo sendo fã dela - convenhamos - muitos de seus livros se parecem na estrutura da história, apesar das soluções dos crimes serem sempre surpreendentes. Mas Noite sem Fim, com uma aura extremamente soturna, foge um pouco do estilo característico das histórias de detetive de Agatha.

Hywel Bennett e Hayley Mills em Noite sem Fim
Em 1971 o livro ganhou uma versão para o cinema, do diretor Sidney Gilliat. O filme, apesar de bom, está muito aquém do livro. Se compararmos a outras adaptações de histórias de Agatha para o cinema, como Assassinato no Expresso do Oriente (1974) ou Morte no Nilo (1978), Noite sem Fim é um filme modesto. Nem obteve tanta visibilidade, talvez devido ao seu elenco nem tão conhecido assim (Hywel Bennett no papel de Michael; Hayley Mills como sua esposa e a sueca Britt Ekland vivendo Greta). O nome mais famoso é o de George Sanders e, ironicamente, esse foi seu penúltimo filme. O ator cometeu suicídio 5 meses antes do lançamento.

George Sanders


A vasta série de títulos de Agatha Christie pode ser facilmente encontrada em livrarias e sebos pelo Brasil, em edições e editoras diversas. Mas a nova coleção em versão pocket, da L&PM, pode ser conferida aqui. A editora tem feito um belo trabalho de divulgação e resgate da obra dessa que é, sem dúvida, a maior escritora policial de todos os tempos.
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