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Isso aqui ô ô... é um pouquinho de Brasil iá iá...

Regina Duarte viveu a sofrida Raquel
"E o mistério chegou ao fim. Todo mundo já sabe quem matou Odete Roitman", disse William Bonner, então apresentador do Fantástico, no programa de 8 de janeiro de 1989. Um domingo que deixou saudades nos milhões de brasileiros que acompanharam os sete meses de emoção, romances, brigas pelo poder, disputas entre o bem e o mal e humor de Vale Tudo.

Como noveleiro assumido, confesso que nunca vi uma reprise causar tanto burburinho e atrair tamanha atenção (tanto da mídia quanto do público). Vale Tudo, que chega ao fim esta semana no canal a cabo Viva, ressurgiu com força total na vida de muitos brasileiros. Quando o Viva deu início à reprise, em outubro de 2010, vibrei - afinal, quando a novela foi exibida pela primeira vez, em 1988, eu tinha apenas 10 anos e acompanhei tudinho - mas não achei que essa reprise mais de vinte anos depois fosse cair na boca do povo. Por se tratar de um canal pago, julguei que só uma pequena parcela da população fosse acompanhar a novela de novo. Que nada. Esqueci que o número de assinantes de canais a cabo é cada vez maior e que mesmo para os que não assinam, é possível assistir no YouTube, na íntegra, capítulo por capítulo.

Beatriz Segall (Odete) e Glória Pires (Fátima)
Infelizmente não se consegue mais hoje nas novelas a comoção de antigamente. Vale Tudo é o melhor exemplo. Mesmo já tendo sido reprisada pela Globo em 1992, Vale Tudo permanece uma das novelas mais queridas e apreciadas pelo público, que nunca se cansou de clamar por sua volta. Mesmo já sabendo quem matou Odete Roitman, uma quantidade enorme de brasileiros acompanhou a reprise da novela com o entusiasmo da primeira vez. "Foi a melhor novela que a Globo já fez", declarou Beatriz Segall, a eterna Odete. Aliás, poucas vezes depois de Vale Tudo uma novela conseguiu prender o público com uma intensidade como aquela. E a nova geração que não assistiu à exibição em 1988 teve a chance de se deliciar com a trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. Aliás, dizem que desde o término da novela Gilberto e Aguinaldo não se dão muito bem. Maria Gladys, que viveu a despachada diarista Lucimar, disse ao jornal Extra de hoje (10/07): "Encontrei Gilberto na rua e agradeci pela personagem. Sabe o que ele me disse? ‘Agradeça ao Aguinaldo, é ele quem escreve os papéis de pobre’". Se a rixa existe mesmo, não importa. O que vale é que a novela, além de fazer o país parar no final dos anos 80, inovou ao abordar uma série de questões até então tabus na teledramaturgia, como a impunidade à corrupção no Brasil.

A novela fez uma forte crítica social com a pergunta "Vale a pena ser honesto no Brasil de hoje?", algo direto demais para os padrões da época (não podemos esquecer que o Brasil tinha se livrado da ditadura apenas três anos antes). Eram tantos personagens marcantes e bem construídos, tudo era muito bem amarrado, não havia buracos nem encheção de lingüiça. Sem falar nas várias cenas antológicas, como os barracos homéricos da alcoólatra Heleninha (Renata Sorrah), as tramóias de Maria de Fátima (Glória Pires) e as tiradas ácidas e impiedosas da vilã Odete.

"O caldo nobre da galinha azul"
Odete Roitman foi assassinada na véspera do Natal de 1988, mais precisamente no capítulo 193. Nem preciso dizer que não teve festa enquanto o capítulo não terminasse. O comentário da ceia natalina daquele ano foi, claro, a morte de Odete. Não havia um brasileiro sequer que não quisesse saber quem havia abatido a megera a tiros. Cada um tinha um palpite diferente. A Maggi, uma das maiores fabricantes de caldo de galinha da época (quem não se lembra do jingle "Caldo Maggi, o caldo nobre da galinha azul"?) tratou de promover um concurso para saber quem havia matado Odete Roitman. O mistério foi alvo de incontáveis apostas, rifas e sorteios. E eu, apesar de criança na época, também queria ficar rico, assim como vários personagens de Vale Tudo, ora! Participei do concurso, mas infelizmente não venci, para minha grande frustração. Eu nutria a esperança, confesso, de que Odete pudesse me render o prêmio de cinco milhões de cruzados. Era só mandar uma carta para a Maggi dizendo quem tinha matado Odete Roitman e responder 'qual o caldo nobre da galinha azul'. Moleza! Mas quem ganhou foi uma menina também de Minas, não lembro a cidade agora. E era só um pouco mais velha do que eu! Odete ficou me devendo essa...

Saiba mais sobre Vale Tudo aqui.

33 anos depois... quem vai matar Salomão Hayalla?

É, já não se fazem mais novelas como antigamente. Isso não é novidade nenhuma. Nosso maior produto - sim, podemos nos orgulhar de produzir as melhores telenovelas do mundo, sem nenhuma vergonha - anda meio enxovalhado. Não quero generalizar, é claro que ainda existem bons autores, bons artistas e emissoras empenhadas. Mas com a morte de grandes autores (Janete Clair, Cassiano Gabus Mendes, Dias Gomes), o time de novelistas anda desfalcado há muito tempo. Vários nomes desaparecem na mesma velocidade com que surgiram e até mesmo autores de grandes sucessos da teledramaturgia brasileira nas últimas décadas (Manoel Carlos, Silvio de Abreu, Gilberto Braga) parecem estar perdendo o fôlego a cada nova trama.


De uns dez anos pra cá as novelas andam menos atrativas para o grande público. Tudo bem que com o advento e a respectiva popularização da TV a cabo, dos computadores e da internet, a TV aberta perdeu uma enorme parte de seu público. As crianças e os jovens de hoje, por exemplo, passam muito mais tempo na internet e nos canais pagos (vendo as séries americanas) do que assistindo novela, como era comum até o final dos anos 90. Aliás, a maioria nem acompanha mais as novelas atuais.

Verdade seja dita: as tramas não têm conseguido prender o público como antes e perderam muito de seu apelo. Os motivos podem ser variados: escassez de boas histórias, falta de afinação nos elencos e desgaste de temas são alguns deles. O ritmo das histórias também mudou, tudo ficou subordinado ao marketing e à publicidade. O público esquece dos personagens rapidamente, ao contrário do que acontecia antigamente, quando os personagens viravam ícones nacionais por anos, até décadas. As trilhas sonoras não são mais bem exploradas e utilizadas como antes. As canções e temas não são marcantes e nem sequer são mais associadas aos personagens. O gênero passa por uma transição (ou adaptação aos novos tempos), isso é visível.

Em meio a essas mudanças, surge um filão: o remake (versão atualizada de uma novela antiga). Cada vez mais freqüente, os remakes têm conseguido elevar os índices de audiência e cativar o público. Sempre que um horário vai mal das pernas, dá-lhe remake! Foi o caso dos remakes dos últimos anos, como Cabocla, Sinhá Moça, O Profeta, Paraíso, Ti Ti Ti (mesclada com Plumas e Paetês), todas da Globo. Sem falar em tentativas de outros canais, como A Escrava Isaura, da Record, e Uma Rosa Com Amor, do SBT. A grande promessa agora é O Astro, remake de uma das novelas brasileiras de maior sucesso de todos os tempos. Exibida originalmente pela Rede Globo entre 6 de dezembro de 1977 e 8 de julho de 1978, às 20 horas, foi escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho. Até hoje o público daquela época se lembra da novela, dos personagens, das músicas. E é claro, do primeiro "quem matou?" em novelas que realmente mexeu com os brasileiros. Quem matou Salomão Hayalla? Essa pergunta ecoa no imaginário popular coletivo do Brasil desde aquele distante 8 de julho de 1978, há exatos 33 anos.

Considerada uma das melhores novelas já produzidas, O Astro obteve índices de audiência superiores aos das transmissões dos jogos da seleção brasileira na Copa da Argentina em 1978 - 80% em média (algo inimaginável nos dias atuais). Três dias depois da novela sair do ar, Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua coluna no Jornal do Brasil: "Agora que O Astro acabou vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando". Foi nessa coluna que Drummond deu um apelido a Janete Clair: Usineira dos sonhos.


O remake da novela, a cargo de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, estréia na próxima terça (dia 12/07), com direção de Mauro Mendonça Filho. Vai inaugurar um novo horário para a teledramaturgia na Globo: de terça a sexta-feira, às 23h. (Nos anos 70 existiam as 'novelas das dez', de temas, digamos, mais 'adultos', que iam ao ar às 22h. Esse horário de novelas foi extinto no final daquela década).

O retorno de O Astro à tela da Globo, como minissérie em 60 capítulos, é a aposta de peso da emissora para comemorar os 60 anos da teledramaturgia brasileira e abrir uma possível faixa de remakes às 23h. Ao que tudo indica, a produção pra lá de esmerada deve despertar o interesse do público e revitalizar esse gênero que faz parte do cotidiano dos brasileiros tanto quanto o futebol e o Carnaval.

Mais sobre a novela:

Sigam-me os bons

Lá se vai quase um ano desde minha última postagem. Há alguns anos, quando iniciei este blog, já havia me justificado com meus possíveis leitores sobre minha relutância - para não dizer preguiça - em escrever com freqüência e manter o blog sempre atualizado. Não adianta, não sou daqueles que conseguem entupir o blog com posts diários. Vou tentar, digamos, ser mais presente. Quem tiver paciência, ótimo. Sugestões, críticas e opiniões serão sempre bem-vindas.

O motivo que me levou a querer escrever este post foi, mais uma vez, minha resistência à tecnologia moderna. Mas posso dizer que evoluí (?) um pouquinho, pois criei uma conta de twitter há alguns meses e desde semana passada tenho acessado a ferramenta diariamente, ainda que eu prefira ler a emitir opiniões e postar comentários. Timidez natural de iniciantes. Graças à minha antenadíssima amiga Érica Abe, que pacientemente me ensinou a lidar com os recursos do twitter, sucumbi a essa febre da atualidade. (O Facebook já havia me fisgado há pouco mais de um ano). Agora que tenho twitter, posso dar uma de Chapolim Colorado e dizer: "sigam-me os bons!". A quem interessar possa, meu twitter é http://twitter.com/#!/danielcouri 
Não que eu tenha me rendido à pressão tecnológica que nos cerca 24 horas por dia. Demoro muito tempo até me deixar 'sucumbir' e mesmo assim, não consigo me viciar completamente. Acontece que por ter incluído o twitter nos meus 'afazeres internéticos' habituais, não pude deixar de me sentir menos apegado às minhas convicções - afinal, tantas vezes proclamei que achava o twitter uma inutilidade sem tamanho, uma bobagem, que eu jamais teria um e de repente, aqui estou eu, aumentando o cordão dos seguidores. Mas não tenho a menor pretensão de ser o recordista mundial de seguidores, nem o nacional, nem o estadual, nem nada. Quero apenas usá-lo e tirar proveito quando me for útil ou me divertir quando for conveniente. Pois bem, peço desculpas a dois dos meus ídolos - Elton John e Woody Allen - por ter aumentado as estatísticas dos twiteiros. "Twitter? Não faço ideia do que seja isso", disse Woody Allen em entrevista recente sobre o lançamento de seu filme Meia Noite em Paris. "Mas o Facebook eu conheço, porque assisti ao filme (A Rede Social) e gostei. Portanto, sei o que é o Facebook. E tenho um site meu na Internet, que nunca vi na vida. Não faço idéia se funciona nem qual seria sua utilidade, mas algumas pessoas o criaram para mim". Na mesma entrevista, quando perguntado sobre como se adapta ao mundo de iPods e iPads, Allen respondeu: "Tenho um telefone e um celular, mas só o que consigo no celular é fazer e receber telefonemas. Não tenho qualquer outra utilidade para ele - não tenho, como se chama um número de texto? Você já viu pessoas idosas que colam uma fita sobre muitos dos botões de seus televisores, para não cometer um engano? Para que não possam acessar aqueles botões e consigam apenas ligar e desligar o televisor? Eu sou exatamente assim. Enquanto houver apenas dois botões para pressionar, eu dou conta". (Quem quiser ler a entrevista na íntegra, acesse http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/06/22/woody-allen-fala-sobre-nostalgia-aversao-tecnologia-escandalos-de-sua-vida-924744765.asp)

Li também uma entrevista ótima com Elton John na Rolling Stone de março, em que ele afirmou: "Eu sou o maior ludita [que se opõe a novas tecnologias]. Não tenho iPad, iPhone, computador nem telefone celular. Eu nem sabia mexer em um iPod - é ridículo". Imposível que eu não me identifique com tais declarações. Quem me conhece sabe. E isso sem querer me gabar ou me envergonhar. Não acho que seja defeito e tampouco qualidade. É assim que eu sou e assim vou tentando me adaptar às mudanças da tecnologia, mas sempre no meu tempo e se eu achar que aquilo realmente vai me trazer algum tipo de benefício, seja no trabalho ou no lazer. Por isso sei que, apesar deste blog já ter uns três anos, não sou um blogueiro, definitivamente. Escrevo quando me dá na telha ou quando me sinto impelido a escrever sobre determinado assunto (que seja interessante ou divertido para mim). É claro que compartilhar gostos e preferências é muito bom e acho ótimo quando alguém me escreve para trocar figurinhas sobre um assunto que abordei aqui, por mais supérfluo que pareça. E sem culpa nenhuma. “Dê-me o supérfluo que eu abro mão do essencial”, já dizia Oscar Wilde. Que me desculpem os aficcionados por novas tecnologias, mas esse supérfluo tem que ser essencial para mim.

O exterminador do presente

Por favor, não pensem que sou mais um saudosista que só quer viver de passado. Admito, sim, que adoro as coisas de tempos passados (filmes, livros, roupas, músicas, hábitos, objetos etc.) mas também gosto de usufruir de alguns mimos que a modernidade oferece (e-mail, Google, mp3, DVD...), o que não me torna um escravo incansável dessa praga que assola o mundo atualmente. Praga sim, porque à medida em que se torna uma imposição, as inovações tecnológicas parecem querer nos esmagar, passar por cima de tudo e de todos. E ai de quem não estiver sempre um passo à frente. É absurda a quantidade de novas bugigangas que nos são empurradas diariamente. E o pior é que o povo consome tudo isso como se estivesse 'crescendo' ou se aperfeiçoando. Em quê?

Telefones celulares tornam-se ultrapassados em, no máximo, seis meses. Ou seja, hoje as pessoas compram um aparelho de celular que tem um milhão de funções (e até se esquecem de que ele serve, originalmente, para fazer e receber ligações telefônicas) e essas funções aumentam a cada mês. O mesmo serve para computadores, nem preciso dizer. Essa obsessão pelo ultra-mega-super-moderno e novo se insinua em tudo, até nos hábitos. Não existem mais lojas de discos. Hoje só há megastores, com CDs importados e caríssimos. As videolocadoras também viraram raridade. Porque todo mundo compra CD pela internet. Ou baixa os filmes pela internet. O mesmo se aplica às pequenas e aconchegantes livrarias de outrora. Aliás 'outrora', por si só, já é de outrora!

Ninguém tem mais telefone fixo. Não existem mais listas telefônicas. E eu que achava tão poético procurar o endereço de uma pessoa pelo catálogo telefônico... Agora tudo é celular. E as pessoas cada vez menos conseguem se comunicar. Não sabem cumprimentar, não sabem conversar, não têm tempo para gentilezas. Mas ficam penduradas no celular desde a primeira hora do dia até a hora de dormir. E não desligam o troço nem para dormir. Me intriga muito essas pessoas que, logo às seis horas da manhã começam a receber ligações no celular. Será que isso acontecia 15 ou 20 anos atrás? Será que tudo era TÃO urgente assim? Que pressa é essa? A menos, é claro, que você seja médico. Aí é compreensível.

Não conhecemos mais o prazer de comprar um disco, manuseá-lo, curtir cada detalhe da capa e do encarte, colocá-lo no aparelho de som... Nem disco existe mais, é tudo baixado do computador e transferido para minúsculos iPods (se é que ainda existe iPod, estou por fora das inovações dos últimos meses). Não conhecemos mais o rosto dos artistas nem como a música foi feita. Nada de instrumentos musicais. Tudo é eletrônico e computadorizado. Orquestra tornou-se uma palavra tão antiga! Parece coisa do século 19. Difícil acreditar que até 30 anos atrás elas estavam aí e eram muito comuns.

As crianças e os adolescentes de hoje não sabem mais escrever à mão. Desde pequenos, levam para a escola um compacto notebook, do tamanho de um caderno (ou menor), e nele digitam o que querem, entram na internet etc. e tal. Simplesmente o caderno de caligrafia virou peça de museu. Aliás, os alunos de hoje não fazem idéia do que seja 'caligrafia'. Nem livros. Não precisam de livros. Procuram tudo o que querem nos sites da internet. Não sabem sequer manusear um dicionário.

E as famigeradas câmeras digitais? Assim como os celulares, elas evoluem a cada mês e os modelos tornam-se obsoletos antes mesmo de ficarem populares. As pessoas não se interessam mais pelo que é curioso ou pitoresco. Saem fotografando TUDO e acumulando milhares de fotos que nunca ninguém vê depois. Nem quem tirou. Quem suporta ver tanta foto? E os álbuns de casamento? Você precisa de um dia inteiro para ver um álbum de casamento, tamanha é a quantidade de fotos. E tudo fica repetitivo ao extremo. Fotos de viagens, que eram sempre tão divertidas e agradáveis de se ver, viraram um suplício. O amigo te chama para ver as fotos das férias passadas. Aí surge na sua frente um notebook com 2700 fotos da praia de sei-lá-onde. Na trigésima foto você já não agüenta mais olhar aquilo. Torna-se maçante.

E os filmes? Gastam bilhões em produções que esbanjam tecnologia. Atores e atrizes são um mero detalhe, quase dispensáveis. A computação gráfica dá jeito em tudo: artistas, cenários, efeitos... Paga-se o dobro do preço normal de um filme para se ver em 3-D algum lançamento no cinema. E muitas vezes o fato do filme ser em 3-D não acrescenta absolutamente nada à história. Quem lucra com isso são os donos das salas de projeção, que cobram o dobro pelo ingresso, e as empresas que montam essa parafernália mundo afora.

Não quero que esta crônica vire um mar de lamúrias do presente, não é isso. Nem quero ser o "exterminador do presente" e pregar que só o passado presta. Apenas acho que essa modernidade excessiva de hoje extrapola os limites e acaba emburrecendo o ser humano, que está cada vez menos apto a lidar com as emoções e os contatos sociais ou familiares. Tudo se resume a um mundo auto-suficiente e individualista, em que basta se ter um iPhone ou um laptop e pronto: nada mais tem importância ou interesse.

Li esses dias em algum lugar que a coleção outono 2010 de Marc Jacobs homenageia a antimodernidade. Achei genial. "A busca pelo novo é tão voraz, principalmente no mundo da moda, que quando o novo aparece ele se torna imediatamente antigo", explica o estilista. Para Marc Jacobs, novo, hoje, é revisitar o clássico. E eu assino embaixo.

O conforto da boa e velha comida

Até que enfim uma “facção” da sociedade parece recobrar o juízo. Sim. Porque eu, como glutão de plantão (com o perdão da rima infame e desproposital) não agüento mais ouvir falar dos esquisitos e inovadores tipos de culinária que surgem a cada estação. E os modismos se espalham com tamanha rapidez que às vezes temos a sensação de estarmos sempre atrasados ou por fora das tendências. E por falar nelas, a nova é a “comfort food”. Nome esquisito, não? Parece marca de colchão ou de amaciante de roupas. Trata-se, na verdade, do que chamamos de comida emocional, pois desperta sensações agradáveis e evoca o prazer e o bem-estar ligados à infância ou a história de vida. Essa culinária começou a se popularizar no Brasil e congrega em si uma idéia oposta à racionalidade dos alimentos funcionais, nos quais os benefícios à saúde são o chamariz. Por Deus, não! Vamos esquecer as dietas saudáveis ao menos por um instante. Por que essa ditadura que proíbe pão, biscoito, bolo, açúcar, óleo, frituras e tantas outras delícias? Tudo bem, é importante não exagerar, é importante cuidar da própria saúde. Mas as pessoas estão ficando paranóicas. Estão sabotando receitas maravilhosas do tempo das avós e bisavós, cortando sal, açúcar e gordura. Os insossos pratos que nos empurram hoje em dia são o supra-sumo do sem graça. E é por isso que a comfort food faz sucesso e ganha novos adeptos a cada dia. Ela não tem a pretensão de ser algo inédito nem revolucionário: é simplesmente a redescoberta de prazeres culinários que foram condenados pela atual onda saudável e ficaram perdidos nas lembranças de tempos passados. Só para citar alguns exemplos dessa evolução (ou involução, como preferirem), a partir dos anos 70 a nouvelle cuisine francesa estava na crista da onda. Era uma reação à cozinha tradicional. Os pratos eram elaborados em pouco tempo, com molhos mais leves e menores porções (bem menores, diga-se de passagem) e apresentados de forma refinada e decorativa. Mas agora o último grito da moda gastronômica é a tal de culinária fusion (de fusão), tendência que mistura de tudo, com predomínio de ingredientes asiáticos e um forte toque americano. Marcos Emílio Gomes, coordenador do projeto O Melhor da Cidade, da Revista Veja, define de forma objetiva essa culinária: “é aquela em que você come pouco, paga muito e não consegue identificar se o que está no prato é animal, vegetal ou mineral”. Em contrapartida, o ressurgimento da comfort food foi algo natural. Digo ressurgimento porque esse tipo de comida não foi inventado agora, sempre existiu. Só andava meio esquecido (para não dizer execrado). Ora bolas, comer é um dos maiores prazeres da vida e estão tentando justamente transformar esse prazer um uma dieta quase hospitalar. Tudo devidamente glamurizado, claro, para termos a impressão de que estamos comendo a comida mais chique e mais saudável do mundo. Ledo engano. As pessoas gostam exatamente do contrário, das coisas mais simples, do que é mais singelo, do que vem do coração. E já andam dizendo por aí que a comfort food age no cérebro como o namoro e ajuda no combate à depressão. Por essa os nutricionistas não esperavam. Puxe pela memória: o quindim que você comida na sua infância, o torresmo, a farofa de ovos e banana, o sonho de padaria, o pastel de queijo, a costelinha assada, a polenta frita, o brigadeiro de colher, o empadão de frango, o pão com manteiga, a sopa de feijão e por aí vai... A lista é quase interminável e o prazer idem. E, ao contrário do que pregam os guias de gastronomia, não tem preço. Mas as lembranças evocadas pela comfort food são as mais caras. Aprecie sem medo de ser feliz.

E o Framboesa vai para...


Framboesa de Ouro (Golden Raspberry Awards ou simplesmente Razzie Awards) é um prêmio cinematográfico que elege os piores filmes produzidos ao longo de um ano. Paródia do Oscar, o prêmio é atualmente escolhido por internautas membros da "associação". Hoje a brincadeira é bem conhecida e divulgada pelo mundo, mas poucos sabem como surgiu essa inusitada 'premiação' e o porquê de se chamar Troféu Framboesa.

Tudo começou em 1980. O americano John J.B. Wilson, redator publicitário, foi o responsável pela criação do famigerado Troféu Framboesa de Ouro. Ele tinha o hábito de convidar os amigos para se reunirem e jantarem em sua casa, em Los Angeles, nas noites de entrega do Oscar. Em 1980 Wilson convidou os amigos para sua tradicional reuniãozinha do Oscar, desta vez para que eles próprios julgassem os filmes e dessem suas premiações aleatoriamente. E a brincadeira pegou. Assim a primeira "premiação" foi realizada na sala de Wilson. A partir de então ele decidiu formalizar o evento, depois de assistir a uma dupla de filmes que estavam sendo lançados simultaneamente naquela época: A Música Não Pode Parar (Can't Stop the Music) e Xanadu. O publicitário distribuiu para os amigos as cédulas para votarem no pior filme.

Assim, Can't Stop the Music foi o primeiro filme a ganhar o Framboesa. Ambos lançados em meados do ano de 1980, Xanadu e Can't Stop the Music foram os maiores embaraços daquela época. Sucesso em termos de trilhas sonoras, os dois filmes foram fracassos retumbantes de crítica, com atuações risíveis, roteiros inexistentes e números musicais no mínimo kitsch. Xanadu foi estrelado pela queridinha da época, Olivia Newton-John, e pelo veterano Gene Kelly. O filme mostra um jovem desenhista que é inspirado por uma musa (enviada por Zeus!) a abrir, junto com um empresário aposentado, a roller-disco que dá título ao filme. "Uma apoteose kitsch e antológica, com Gene Kelly pagando mico na cena final", disse uma apresentadora de TV sobre Xanadu. Já Can't Stop the Music é estrelado pelos alegres rapazes do conjunto Village People, também muito popular na época. Na história, os integrantes do Village People se reúnem e descobrem a disco music (!), que passam a espalhar pelo mundo com a ajuda de amigos (uma ex-modelo e um aspirante a compositor). O filme está listado entre os 100 Piores Filmes Mais Divertidos Já Feitos, no guia oficial do Golden Raspberry Award, de John Wilson.

O nome do troféu (Golden Raspberry Award, original em inglês) vem de uma expressão com a palavra raspberry (framboesa). A fruta parece ser usada no sentido da expressão "blowing a raspberry" (assoprando uma framboesa), que é simular o som de flatulência com a boca. Para completar o clima de deboche em cima do Oscar, as indicações do Framboesa saem um dia antes das indicações da Academia – e a "premiação" também é um dia antes da festa.

O prêmio é uma framboesa de plástico sobre um filme Super 8, pintado de tinta-spray dourada, que vale menos de US$5 (isso mesmo, menos de cinco dólares!). O hall da fama do Framboesa é liderado por Sylvester Stallone e Madonna. Stallone é o pior ator de todos os tempos, com 30 indicações e 10 prêmios (até agora) e Madonna possui 15 indicações e 9 prêmios (até agora).

Muito embora Xanadu e Can't Stop the Music figurem qualquer lista de 'piores filmes já feitos' que se preze, deixo claro que sou fã incondicional das duas "obras". As trilhas sonoras permanecem extraordinárias e o visual dos filmes já vale a viagem ao submundo do pseudo-glam e do cult-kitsch. E viva o Troféu Framboesa! 
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