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Poema de Natal


Poema de Natal

Vinicius de Moraes


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

O vinil nosso de cada dia


Alguém aí perguntou "que vinil"? Estou falando do disco de vinil mesmo, aquele bolachão preto também conhecido por long-play, ou LP, o bom e velho LP do povo. Ele escapou da morte anunciada e completou 60 anos em novembro de 2008. Ah, por quê decretar o fim do disco de vinil? Ceifaram-lhe a vida antes mesmo de entrar na menopausa. Mas esse tom melodramático adotado por mim não precisa ser levado mais adiante, já que o vinil parece estar ressurgindo das cinzas, talvez um pouco mais timidamente que a Fênix... Mas agora já é fato: o vinil voltou com tudo mesmo. Isto é, aqui no Brasil, pois na Europa ele nunca chegou a sair totalmente do mercado. Mas o número de apreciadores do vinil aumenta a cada dia por aqui, e não apenas entre os mais velhos como também entre os bem jovens. O disco de vinil tornou-se definitivamente algo cult e está em alta como há muito tempo não se via. Eu nunca abandonei meus long-plays e testemunhei o desprezo com que o vinil foi tratado nos últimos dez anos. Eu, ao contrário, nunca me defiz dos meus e nunca parei de comprá-los. Agora, quem diria, a mais nova moda é ouvir LP. Esse mundo dá voltas mesmo... Enquanto isso as vendas de CD continuam em declínio e as lojas desaparecendo.


Já os famosos "bolachões" não desapareceram, como muitos pensam. Só não estão estavam tão à vista como antes. Dado como morto pela indústria, banido das lojas (que pecado!) e há até pouco tempo apenas um traço nos índices de consumo musical, o vinil girou, girou e deu a volta por cima. Agora, prestes a completar 61 anos de vida, ele sobrevive nas prateleiras de colecionadores ao redor do mundo. Salvo da morte principalmente pelas mãos dos DJs, o vinil. Nada mal para um ícone musical de tempos passados que já estava se transformando em peça de museu.


Nascido em novembro de 1948 (seu criador foi Peter Goldmark), o disco de vinil acompanhou praticamente todos os grandes momentos da música pop - o surgimento dos Beatles, o fogo de Jimi Hendrix, a poesia de Bob Dylan, a contracultura, o psicodelismo, o punk rock, a discothèque etc. Mas com a chegada do CD (compact disc) nos anos 80, e sua posterior popularidade, ele foi sendo deixado de lado gradativamente. Para a indústria do disco, era assim que tinha que ser: o CD era mais prático, ocupava menos espaço, tinha uma excelente qualidade de reprodução, possibilitava um armazenamento maior de músicas e - a gota d'água - não arranhava! Num piscar de olhos, o vinil foi sendo empurrado para o canto das lojas e depois erradicado totalmente delas. Grandes cadeias, aqui e lá fora, simplesmente deixaram de comprar discos de vinil. Parecia o fim. Porém nem todas as pessoas se conformaram com essa morte anunciada. E foram os DJs e o público que os segue, os principais responsáveis pela salvação do vinil. (Não esqueçamos também os colecionadores de plantão e amantes do LP, como eu aqui).


Colecionar compact discs? Parece piada quando comparado a colecionar LPs. Lavar o disco, admirar sua capa como se fosse um pôster, evitar riscos, cuidar da vitrola, arrumar a agulha da vitrola, acertar o pitch, trocar de lado... Isso é que é hobby de verdade. Mesmo com todos os benefícios que a era digital proporcionou e da inegável praticidade de manuseio e armazenamento, nem o CD e nem o iPod proporcionam ao ouvinte o gostoso ritual de audição de um LP - costuma ser longo demais para ser escutado de uma só vez e não inclui o intervalo da troca de lados. Mais: a "bolachona" nunca vai oxidar. Quando tratada com carinho, vira um documento para o dono. "O vinil é uma coisa real" - disse o DJ Marky Mark - "Você pega, sente, tem contato direto. É como uma mulher".

Travolta é Travolta. E pronto.

Li na internet um absurdo: que Simon Cowell, jurado do programa Britain's Got Talent (aquele que revelou Susan Boyle) quer fazer um remake de Saturday Nigth Fever. Se é verdade ou boato não sei, mas sou capaz de apostar que a idéia não vai pra frente. Os Embalos de Sábado à Noite é o tipo de filme que não permite remakes. É produto de uma época específica, singular, não faz o menor sentido refilmá-lo. Até porque o papel que foi de John Travolta seria de... Zac Efron! Por Deus, ele JAMAIS poderia ser Tony Manero. Travolta é único. Zac tem cara de emo, de ídolo teen, argh. Nem de longe convenceria como Tony Manero. Ele ficaria bem em um remake de Brüno! (risos) É cada uma que inventam...

E por falar em John Travolta, li também no mesmo site uma manchete patética: "Cada vez mais recluso, John Travolta aparece acima do peso em Miami". E abaixo dizia: "Ator de 55 anos foi visto comendo cheeseburguer e fritas em lanchonete". Achei tão idiota que não merecia nem comentar, mas como sou fã confesso de Travolta, não resisti. Puxa vida, o cara perdeu um filho recentemente, obviamente deve estar passando por um momento doloroso, triste. Que mal há em comer cheesburguer e batata frita? Ele é adulto (bem adulto por sinal), vacinado e não deve nada aos chatolinos politicamente corretos de plantão. É um ser humano, ora. Passando por uma depressão ou não, ele tem direito de comer junk food. Acho revoltante o modo como a mídia (e a sociedade atual) trata os artistas e seus hábitos alimentares. Já não se pode mais fumar, nem beber e nem comer! Aonde vamos parar? Deixem Travolta em paz! E se querem um rapazinho sarado, depilado, delicado, que não beba e não fume e viva sob dieta alimentar rígida (provavelmnete à base de saladinhas e suquinhos naturais), fiquem com Zac Efron. Mas nada de tentar refazer Saturday Night Fever.


Vivendo a vida com Manoel Carlos

Só mesmo meu guru novelístico para me animar a publicar mais um post em meu blog, há tanto tempo abandonado. Não resisti. Ontem assisti a estréia de Viver a Vida, nova novela das 8 de Manoel Carlos. E (pelo menos para o primeiro capítulo) o saldo não poderia ter sido mais positivo. Aliás, a trama promete ser tão boa quanto os sucessos anteriores de Maneco, exceto Páginas da Vida (para mim a mais fraca de suas novelas). Apesar de termos pela primeira vez uma Helena jovem, parece que a história não vai deixar a desejar. O universo feminino que o autor tanto gosta de retratar está lá: há mulheres fortes, fracas, felizes, amargas, amadas, mal amadas, modernas, problemáticas, realizadas, enfim, toda a vasta gama que povoa as histórias de Maneco.

As chamadas "crônicas do cotidiano" marcaram o estilo que consagrou Manoel Carlos nas três últimas décadas, com novelas que caíram facilmente no gosto do público e que tornaram seu trabalho indefectível na teledramaturgia nacional. Mas sou suspeito para falar, já que minha monografia de conclusão de curso foi justamente sobre... as telenovelas de Manoel Carlos! Suas tramas são revestidas de cotidianidade, compondo regras de comportamento, de parentesco, de afetos e desafetos, e organizando estas relações de uma forma que diz respeito ao sistema de sociabilidade de seu público. (Muitos acham "água-com-açúcar"). Viver a Vida não foge à tradição. E como também é costume nas novelas de Maneco, há locações e paisagens belíssimas de Búzios e Rio de Janeiro, sem falar nos capítulos que ainda estão por vir, gravados em outros países.

O contador de histórias

Lendo uma entrevista com Gay Talese publicada ontem, 07 de julho de 2009, no Correio Braziliense, não pude deixar de me identificar com as opiniões dele. E devo dizer que concordo em gênero, número e grau com elas. Para quem não sabe, Gay Talese, de 77 anos, é um dos grandes jornalistas e escritores norte-americanos e o maior nome do jornalismo literário nos Estados Unidos. Foi um dos criadores do Novo Jornalismo (New Jornalism), movimento criado na década de 1960 que incorporava no jornalismo características de literatura (descrição de cenas, diálogos e ponto de vista dos personagens). Em tempos de analfabetismo funcional, precariedade no ensino, empobrecimento cultural e desvalorização de diplomas, vale a pena nós, jornalistas, fazermos uma reflexão sobre a profssão. Eu mesmo não me considero um jornalista completo. Longe disso! Mas de uma coisa nunca tive dúvida: adoro escrever. Foi só por isso que fiz faculdade de jornalismo. E embora seja um grande admirador de Gay Talese, discordo dele em parte, quando ele afirma que o diploma não é necessário em nossa profissão. Acho que o que ele quer dizer é que o talento é algo que está dentro da pessoa, tenha ela diploma ou não. Se uma pessoa escreve bem, tem o dom da palavra e está apta a escrever com alto grau de qualidade, ela pode e deve fazê-lo. Talese mesmo é um desses. Infelizmente o que fazem hoje em dia é tolher qualquer possibilidade de literatura no jornalismo. Não há espaço para se romancear nem detalhar nada. É tudo muito rápido e curto, tudo urgente, tudo para ontem. Argh! Por isso resolvi transcrever aqui trechos da entrevista com Talese concedida à jornalista Nahima Maciel:


A curiosidade foi o ingrediente fundamental para lançá-lo no mundo jornalístico?

Eu tinha a paciência de estar com outras pessoas por muito tempo. Eu não estava sempre correndo para terminar algo, estava interessado em tomar tempo para entender as pessoas muito bem. Jornalistas estão sempre correndo e são impacientes com os outros. Jornalismo é motivado pelo furo. Acho isso ridículo. Para mim, o mais importante não é ser rápido, é ser correto, ser acurado. E também ser profundo e tentar entender bem o assunto sobre o qual você está escrevendo. Quando me formei, fui para Nova York e consegui o emprego no jornal como servente. No tempo livre, eu escrevia coisas e algumas entravam no jornal. Mais tarde, quando fui promovido a repórter, continuei. Andava por Nova York em busca dessas histórias que não eram grandes histórias, não estavam na primeira página, estavam lá no meio. Eram histórias de pessoas ordinárias que me contavam o que pensavam das coisas. Aos poucos, os artigos ficaram maiores, os desafios também e depois viraram livros, mas eram histórias sobre pessoas ordinárias. Sou um contador de histórias, e isso não é jornalismo nem literatura.


Seria este o futuro do jornalismo impresso, contar histórias que não estão nas primeiras páginas dos jornais e deixar para a internet as notícias?

Acho que essas são as histórias mais importantes de serem contadas porque as notícias da primeira página estão na internet e na televisão. Os jornais estão 24 horas atrasados. Sempre. O jornalismo não deveria estar interessado no furo. O jornalismo deveria se interessar pela literatura da realidade. Acho que esse é o futuro do jornalismo, porque acidentes de aviões, alguém baleado ou a morte de uma pessoa importante vão estar na internet, tevê ou rádio 10 minutos depois de acontecer. As pessoas não precisam ler jornais para saber das notícias. É um erro chamar jornais de newspapers, as notícias já estão velhas quando chegam aos jornais. O que é realmente interessante é a personalidade das pessoas que não parecem significativas, mas que refletem as notícias. Por exemplo, essa crise financeira. Há muitas histórias sobre como as pessoas estão sobrevivendo e os jornais deveriam escrever sobre elas. Na guerra do Afeganistão nada foi escrito sobre como as pessoas comuns vivem o talibã. O talibã controla as montanhas, invade o Paquistão, ok, mas ninguém escreve sobre como é ser um talibã. Tenho certeza de que é possível encontrar uma família talibã e escrever sobre como eles vêem o mundo. O problema é que os governos têm a postura de saber quem é o aliado, quem é o inimigo e não falar com o inimigo.

Morte em Veneza - Trecho



“As observações e as experiências de um indivíduo solitário, calado, são ao mesmo tempo mais vagas e mais intensas do que as de uma pessoa gregária. Seus pensamentos são mais graves, mais esquisitos, e jamais falta neles um quê de tristeza. Imagens e impressões que facilmente poderiam ser ofuscadas por um olhar, uma risada, uma troca de opiniões, aprofundam-se pelo silêncio, assumindo importância e transformando-se em acontecimentos, aventuras, sensações. A solidão produz a originalidade, a beleza ousada e singular, o poema. Mas também será a fonte de tudo quanto for errado, desproporcionado, absurdo, ilícito.”

THOMAS MANN
Morte em Veneza
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